O choro, o siso e o juízo.

Olá, pessoal! Como estão no ano novo? Já aconteceram tantas coisas em pouco tempo desse ano que já nem parece mais com um novo ano, não é?

Bem, muitos estavam torcendo para que 2018 acabasse (incluo minha pessoa, admito, rss) para viver uma nova esperança, respirar novos ares em 2019 e até agora mal podemos experimentar desses sentimentos. Tragédias chegaram com tamanha violência quanto rápidas e nos deixaram literalmente sem chão e sem teto, já que atingiram a ambos.

O que dizer, meu Deus? Sentir a dor? Chorar com os que choram? Há algo mais que nós, que estamos de longe, podemos fazer para nos solidarizar com essas pessoas? Sim, estamos longe, mas somos pessoas iguaizinhas as que estavam nesses lugares. Tanto em Brumadinho (quem estava trabalhando, morava lá ou de férias na pousada), quanto no Rio (por causa da chuva ou dos meninos no centro de treinamento) e agora o jornalista, que estava também, assim como eu e você, voltando de uma palestra, ou seja, estava trabalhando. Pessoas com o dia a dia iguais aos nossos, com sonhos, alegrias e dores iguais as nossas. Às vezes, levamos anos ou a vida sonhando com algo, planejando, acreditando e de repente, tudo acaba, tudo se soterra na lama ou na chuva, tudo some numa fumaça ou no inesperado do fogo…

É num momento desses que podemos ver como somos pequenos… como somos egoístas em achar que nossa dor ou nosso problema é sempre pior do que o do outro. Estamos tomados por tanta justiça própria e orgulho que é difícil sentimentos como compaixão e empatia conseguirem ultrapassar nossa couraça fria e dura e chegarem até o nosso coração, já há muito gelado, quase morto.

Meu Deus, como tomar meu café da manhã e não orar para que Deus console as famílias de tanta dor? Não consigo nem de longe mensurar o que essas pessoas que brutalmente perderam seus familiares possam estar sentindo e vivendo, palavras me faltam para tal e mesmo se as tivesse, acho que nem ousaria usá-las nunca tendo passado por algo parecido. Prefiro usar minhas palavras para (de coração) pedir ao Senhor que use de amor e misericórdia para com todos.

Em janeiro, arranquei o siso e acreditem, foi a melhor experiência com dentista que tive na minha vida! Que profissional maravilhoso, conseguiu transformar uma experiência traumática na melhor da minha vida (nesse segmento). Daí comecei a pensar sobre o que se falava antigamente, que siso era sinônimo de juízo. Diz-se que as duas coisas têm ligação porque esse dente nascia no final da adolescência, até os 18 anos, ou seja, a época em que começava a maturidade.

Claro que isso não faz sentido, é algo antigo que era dito pelo senso comum, nada científico para provar. Mas o que quero dizer com isso tudo é que é interessante pensar que tecnicamente acreditava-se que era preciso passar por uma dor para se ter juízo. O que houve conosco então? Vivemos em dias de tantas dores e mesmo assim parece que nosso juízo não chegou ou não amadurecemos totalmente… se não temos amor ao próximo, se não choramos com quem chora, permita-me dizer que, na minha humilde opinião, além de não termos juízo, não amadurecemos e já quase não nos portamos como seremos humanos, feitos à semelhança de Deus, com compaixão… temos tratado o outro com tanta indiferença, somos falsos, cínicos, mentimos na cara dura, nossos interesses vêm (muitas vezes) antes do amor ao próximo. O mais incrível é que até com aqueles que temos “uma certa identificação”, isso já não basta para sermos honestos se tivermos algum interesse pessoal à frente.

No que estamos nos tornando? Fiz o texto falando “nós” porque sim, nós somos assim, prezados leitores, passíveis de erros. Se vocês são pessoas que sabem quem são, tenho certeza que em alguma coisa se identificaram, mas se você é bom demais para admitir suas fraquezas e/ou defeitos, você é melhor que eu, melhor que nós que estamos reféns de viver na realidade de um mundo em decadência moral.

É difícil transformar traumas em experiências positivas e de transformação? Muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito. Nunca fui, não sou e pretendo nunca ser hipócrita como alguns que tive que conviver e dizer que é fácil, que é fraco quem tem dificuldade em sair do luto ou de uma decepção profunda. Impressionante que até isso queremos julgar e controlar uns nos outros, o tempo que cada um precisa para se recuperar de algo. Sabe o que aprendi na pele a respeito disso? Cada um só sabe do tempo que necessita quando passa por algo. É óbvio que há casos extremos, em que existe todo um contexto emocional mais grave e a pessoa precisa de ajuda especializada, não estou nem de longe citando esses casos, estou falando apenas que se somos únicos, tudo em cada um de nós também é, inclusive nossas dores. No entanto, também quero dizer que sim, é possível transformá-las em experiências positivas.

Sabe quando aprendi verdadeiramente sobre amar as pessoas e tentar compreendê-las incondicionalmente? Quando me afastei daquelas que diziam que amavam, mas era apenas por interesse e passei a olhar para o sofrimento verdadeiro e solitário daqueles que passam por tragédias como as que têm assolado a tantos nessas últimas semanas. Não que as pessoas das quais me afastei não precisem ser amadas, mas acredito que algumas coisas na vida Deus permite que passemos sozinhos para aprender certas lições pertinentes a vida de cada um. Todos precisamos ser amor, todos precisamos viver o amor e todos precisamos do amor, que é Jesus. O amor desse mundo está contaminado, não é puro.

Meu desejo sincero é que cada um de nós consiga de alguma forma transformar nossos traumas (assim como foi comigo na hora de arrancar o siso), sejam os antigos ou os recentes em experiências positivas, que nos levem a um lugar melhor, onde possamos ver que sim, somos mais fortes do que sempre pensamos que fôssemos. Não porque somos bons, mas porque Deus soprou isso em nós, soprou graça, força e amor. Temos a essência de Jesus em nós e nEle, podemos. Quero ter um coração humilde para sentir a dor do próximo, chorar sim, me compadecer sim, da forma que der. Não é porque não posso ir até o local dar um abraço naqueles que ficaram que não quer dizer que não estou sendo solidária.

O choro, o siso e o juízo tem mais a ver do que se imagina, tudo é questão de perspectiva, de como vemos e pensamos sobre o que vemos e vivemos.

No meu caso, precisei perder o siso para que o amadurecimento chegasse totalmente. Foram muitos “sisos” que precisei arrancar de mim para descobrir quem sou e em quem estou me transformando. E você?

Até a próxima.

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